All I Want for Christmas… é que estejamos bem.

Imagem em tons de cinza de uma floresta; ao centro há um espaço maior de céu onde se lê "Que seja o que quiseres que seja."

Com as luzes na rua, as decorações nas montras e o frio, Dezembro traz uma época carregada de tradição e simbolismo. Na nossa cultura, a celebração do Natal traz também um forte apelo aos valores da família, a que estas se juntem e (se) celebrem. Mas para os membros daquelas famílias que não se parecem tanto com o ideal familiar publicitado (todas?), esta época pode trazer recordações difíceis e o reviver de sentimentos e emoções que pensávamos ter já ultrapassado.

A linha de continuidade entre passado, presente e futuro criada pelas tradições natalícias tem a capacidade de nos transportar no tempo: o cheiro quente da cozinha da avó, o brilho das luzes, as decorações do pinheiro… para algumas pessoas estas recordações estão associadas aos tempos mais simples da infância e anseiam por esta época do ano para os reviver. No entanto, para aquelas de nós que não tiveram uma infância tão ideal, esta época e suas tradições podem trazer recordações dolorosas e até a pressão para rever os nossos traumatizadores dentro de um ambiente que silencia as nossas vivências.

Frequentemente, face a estas recordações, tentamos evitar sentir as nossas emoções e recorremos à comida, ao álcool, às compras, à agressividade contra nós e contra as outras pessoas, etc como estratégia. Mas é possível navegar esta época com menor dano para nós e para as nossas relações.

Quando as pessoas têm em conta as feridas do seu passado traumático têm uma melhor oportunidade para cuidar de si próprias e não se envolverem em estratégias daninhas e perigosas.

Laurie Kahn

Ainda que tudo à tua volta te diga que este é um tempo para passar em família, ainda que o tenhas feito todos os anos desde que te lembras, estes dias, como todos os outros, são teus e podes escolher como e com quem os vives. Ainda que te o apontem, não há nada de errado em reivindicar tempo para cuidares de ti e em limitar o tempo que passas em ambientes incómodos (ou que têm potencial para o ser). Cria novas tradições, algo positivo a que possas ligar esta época e que não te ligue ao passado, ou que te ligue só às boas recordações desse tempo. Num ano em que passei esta época fora do país, na manhã de Natal vi o primeiro filme da saga Harry Potter, algo que me conecta com a minha irmã e que, por isso, se tornou numa das boas recordações do Natal. Faz planos com amigas/os, junta-te a um coro, faz voluntariado, organiza um evento na comunidade, faz bolachas para oferecer, cria a tua própria refeição tradicional! Ou, se tudo isto te parece dar relevância a um dia que, para ti, não a tem, então trata-o como isso mesmo: um dia como os outros. (Naquele ano, a minha ceia de Natal foi sopa e passei a meia noite a dormir: não tive azeite aquecido com cebola, mas também não houve discussões na cozinha.) Não há, nem tem de haver, uma forma correcta de passar este ou qualquer outro dia: cria a tua própria tradição (que pode bem ser não ter tradição nenhuma ;))

As festas não têm por que ajustar-se ao molde tradicional. Não te exijas a ti mesma fazer com que as tuas férias pareçam felizes nem a experiência de proximidade com a família que a sociedade impõe.

Laurie Kahn

Quando/se estiveres com a tua família, faz pausas: dá um passeio, põe-te noutra divisão e tira uns minutos para meditar ou ouvir música, seja a tua preferida ou aquela que te faz dançar até cair para o lado, chama aquela prima confidente para um chá na varanda ou liga a um amigo para partilhar as mais recentes peripécias das vossas famílias. Veste a tua roupa preferida, põe algo que tenha um significado especial para ti no bolso, guarda mensagens de amigxs para reler nesses momentos… E, no fim, faz algo para cuidar de ti ou para te conectar com as pessoas que te nutrem.

A experiência de trauma tem a capacidade de transportar a sensação física e mental do passado para o presente, criando a ilusão de que ainda somos aquela criança, de que aquela ainda é a nossa realidade. Além disso, a pressão que nos colocamos para ultrapassar o que aconteceu, cria frustração com os sentimentos que ainda surgem: nós já não somos aquela criança, mas aquela criança ainda somos nós. E é possível equilibrar isso: é possível aceitar o que ainda dói em ti e, ao mesmo tempo, encontrar formas de te conectar ao presente, relembrando-te de que já não estás naquela situação, de que sobreviveste e que aqueles momentos de terror e impotência ficaram no passado.

“Pára de esperar esquecê-lo e permite-te vivê-lo o melhor que puderes.”

Gretchen Schmelzer

Para este texto inspiramo-nos numa entrevista a Laurie Kahn publicada na Primera Vocal (castelhano) e num texto da Gretchen Schmelzer (inglês).

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